Artes

2026-08-11

Afinal, o que significam as imagens à entrada das Festas do Povo?

Quem chega a Campo Maior por estes dias, para visitar as Festas do Povo, encontra à entrada um conjunto de imagens que despertam a curiosidade. Figuras, símbolos e referências que contam várias histórias ao mesmo tempo. Mas afinal, o que representam? 

A resposta está num trabalho de Elisabete Fiel, geógrafa e também artista plástica, para quem a Geografia assume uma importância particular na interpretação do território. Foi a partir desse olhar que decidiu reunir numa única criação diferentes elementos que, na sua perspetiva, ajudam a contar a identidade deste concelho alentejano. “Trata-se da Alma de Campo Maior”, explica a autora, onde cabe praticamente tudo.

“Campo Maior é um território de fronteira, que existe marcada no mapa, mas que é ténue à nossa vista”, diz Elisabete Fiel. Uma fronteira que se sente menos como uma linha de separação e mais como um espaço de encontro.

É por isso que nas imagens aparecem as artes, a literatura, a poesia, o futebol, o teatro e as tradições, mas também símbolos ligados à natureza, à arquitetura, à história e às relações que Campo Maior foi construindo ao longo dos anos. 

Uma chávena que conta uma terra inteira


Entre os elementos representados estão a  flor do café e a oliveira, dois símbolos associados à identidade e à paisagem de Campo Maior. O mar também está presente, através da referência ao engenheiro Mário Ruivo, um dos grandes nomes portugueses da oceanografia e da defesa dos oceanos.

Há ainda uma referência às tapeçarias de Timor, numa evocação da ligação de Rui Nabeiro àquele território e do apoio dado pelo Comendador à criação de uma escola. Os grous representam outro património de Campo Maior: o natural. A presença destas aves recorda a riqueza ambiental do território e a sua integração na Rede Natura 2000.

E a arquitetura não ficou esquecida. A Adega Mayor, desenhada por Siza Vieira, surge como uma referência a uma obra que se tornou parte da própria paisagem de Campo Maior.

“As chávenas têm tudo o que é Campo Maior”, explica Elisabete Fiel. E é precisamente através delas que a autora procurou juntar diferentes pedaços da identidade local.

Mas o café está representado de outras formas. As sacas remetem para a própria história do café em Campo Maior, enquanto a mochila evoca uma outra dimensão da vida na fronteira: o contrabando.

Também as colheres escondem uma história. Nos seus pormenores estão representados elementos alusivos aos países com os quais Campo Maior mantém relações comerciais ligadas ao café, levando para a obra uma atividade que projetou o nome da vila muito para além da fronteira.

A ligação a Espanha ocupa igualmente um lugar importante. O lenço, comum aos trajes tradicionais do Alentejo e de San Vicente Raspeig, é uma dessas pontes entre os dois lados da fronteira. San Vicente de Raspeig exibe as célebres "Hogueras", tradição que ganhou lugar nas representações.

Elisabete Fiel foi convidada para desenvolver este trabalho ao lado de Alexandro Lopes, artista plástico ligado às Hogueras, uma manifestação efémera classificada como festa de interesse nacional em Espanha. O trabalho foi encomendado pela Associação de Festas de Campo Maior.

A colaboração permitiu adaptar elementos das Hogueras à realidade campomaiorense, criando uma ligação entre duas tradições que, apesar de acontecerem em lados diferentes da fronteira, partilham uma forte dimensão comunitária.

É aí que aparece uma das figuras mais marcantes: a Dama do Fogo. Nas Hogueras, a Dama del Fuego tem a missão simbólica de levar o fogo às esculturas efémeras que dão vida à festa. Também as Damas, nas versões infantil e adulta, assumem um papel importante e são escolhidas entre a comunidade através de candidaturas muito participadas.

Mas há um detalhe que pode passar despercebido: as figuras têm rosto, mas não têm olhos nem uma expressão definida. A opção tem um significado: “São todas as pessoas”, explica a autora. Ou seja, não representam alguém em particular. São figuras abertas à comunidade, permitindo que qualquer pessoa se reveja nelas.

E essa ideia estende-se também às gerações. As figuras representam diferentes idades e traduzem a vontade de que os mais novos continuem a tradição, assegurando que aquilo que foi construído pelas gerações anteriores não fica apenas na memória.

Rui Nabeiro e uma história pessoal


A figura do Comendador Rui Nabeiro também está presente neste retrato de Campo Maior. Não apenas pelo empresário e pelo impacto económico e social que teve no território, mas pelo homem que Elisabete Fiel conheceu e admirou.

Na sua perspetiva, a estratégia de Rui Nabeiro mostrou como um território de baixa densidade podia criar impacto muito para além das suas fronteiras. Mas a relação é também pessoal.

Na adolescência, Elisabete Fiel contou com o apoio do Comendador para participar numa conferência internacional sobre Educação Ambiental, nos Estados Unidos. Foi em Chicago que tomou uma decisão que acabaria por marcar o seu percurso: estudar uma área relacionada com o ambiente.

Quando regressou a Campo Maior e começou a trabalhar na escola, voltou a contar com o apoio de Rui Nabeiro nos projetos que desenvolvia. Por isso, a homenagem que agora surge à entrada das Festas do Povo tem também uma dimensão de memória e reconhecimento.

As imagens que recebem quem chega às Festas do Povo são, afinal, uma espécie de mapa afetivo de Campo Maior. Ali estão a fronteira e as tradições, a natureza e a arquitetura, o café e a oliveira, as Hogueras e as flores, o conhecimento, a cultura, o contrabando e, sobretudo, as pessoas.

E há uma preocupação com o futuro: que as novas gerações reconheçam este património como seu e tenham vontade de continuar a tradição. “O património são flores de papel, esculturas, ideias, sorrisos, música, as saias e, sobretudo, as pessoas”, descreve Elisabete Fiel.

Talvez seja essa a melhor forma de olhar para aquilo que está à entrada das Festas do Povo. Não são apenas imagens para receber quem chega. São uma tentativa de pôr Campo Maior inteiro diante dos olhos de quem o visita.

Uma Alma de Campo Maior feita de memórias, símbolos e pessoas — e que, desta vez, começa logo a contar a sua história à entrada da festa.

 



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