“Campo Maior é um território de fronteira, que existe marcada no mapa, mas que é ténue à nossa vista”, diz Elisabete Fiel. Uma fronteira que se sente menos como uma linha de separação e mais como um espaço de encontro.
É por isso que nas imagens aparecem as artes, a literatura, a poesia, o futebol, o teatro e as tradições, mas também símbolos ligados à natureza, à arquitetura, à história e às relações que Campo Maior foi construindo ao longo dos anos.
Uma chávena que conta uma terra inteira
Entre os elementos representados estão a flor do café e a oliveira, dois símbolos associados à identidade e à paisagem de Campo Maior. O mar também está presente, através da referência ao engenheiro Mário Ruivo, um dos grandes nomes portugueses da oceanografia e da defesa dos oceanos.
Há ainda uma referência às tapeçarias de Timor, numa evocação da ligação de Rui Nabeiro àquele território e do apoio dado pelo Comendador à criação de uma escola. Os grous representam outro património de Campo Maior: o natural. A presença destas aves recorda a riqueza ambiental do território e a sua integração na Rede Natura 2000.
E a arquitetura não ficou esquecida. A Adega Mayor, desenhada por Siza Vieira, surge como uma referência a uma obra que se tornou parte da própria paisagem de Campo Maior.
“As chávenas têm tudo o que é Campo Maior”, explica Elisabete Fiel. E é precisamente através delas que a autora procurou juntar diferentes pedaços da identidade local.
Mas o café está representado de outras formas. As sacas remetem para a própria história do café em Campo Maior, enquanto a mochila evoca uma outra dimensão da vida na fronteira: o contrabando.
Também as colheres escondem uma história. Nos seus pormenores estão representados elementos alusivos aos países com os quais Campo Maior mantém relações comerciais ligadas ao café, levando para a obra uma atividade que projetou o nome da vila muito para além da fronteira.
A colaboração permitiu adaptar elementos das Hogueras à realidade campomaiorense, criando uma ligação entre duas tradições que, apesar de acontecerem em lados diferentes da fronteira, partilham uma forte dimensão comunitária.
É aí que aparece uma das figuras mais marcantes: a Dama do Fogo. Nas Hogueras, a Dama del Fuego tem a missão simbólica de levar o fogo às esculturas efémeras que dão vida à festa. Também as Damas, nas versões infantil e adulta, assumem um papel importante e são escolhidas entre a comunidade através de candidaturas muito participadas.
Mas há um detalhe que pode passar despercebido: as figuras têm rosto, mas não têm olhos nem uma expressão definida. A opção tem um significado: “São todas as pessoas”, explica a autora. Ou seja, não representam alguém em particular. São figuras abertas à comunidade, permitindo que qualquer pessoa se reveja nelas.
E essa ideia estende-se também às gerações. As figuras representam diferentes idades e traduzem a vontade de que os mais novos continuem a tradição, assegurando que aquilo que foi construído pelas gerações anteriores não fica apenas na memória.
Rui Nabeiro e uma história pessoal
A figura do Comendador Rui Nabeiro também está presente neste retrato de Campo Maior. Não apenas pelo empresário e pelo impacto económico e social que teve no território, mas pelo homem que Elisabete Fiel conheceu e admirou.
Na sua perspetiva, a estratégia de Rui Nabeiro mostrou como um território de baixa densidade podia criar impacto muito para além das suas fronteiras. Mas a relação é também pessoal.
Na adolescência, Elisabete Fiel contou com o apoio do Comendador para participar numa conferência internacional sobre Educação Ambiental, nos Estados Unidos. Foi em Chicago que tomou uma decisão que acabaria por marcar o seu percurso: estudar uma área relacionada com o ambiente.
Quando regressou a Campo Maior e começou a trabalhar na escola, voltou a contar com o apoio de Rui Nabeiro nos projetos que desenvolvia. Por isso, a homenagem que agora surge à entrada das Festas do Povo tem também uma dimensão de memória e reconhecimento.
As imagens que recebem quem chega às Festas do Povo são, afinal, uma espécie de mapa afetivo de Campo Maior. Ali estão a fronteira e as tradições, a natureza e a arquitetura, o café e a oliveira, as Hogueras e as flores, o conhecimento, a cultura, o contrabando e, sobretudo, as pessoas.
E há uma preocupação com o futuro: que as novas gerações reconheçam este património como seu e tenham vontade de continuar a tradição. “O património são flores de papel, esculturas, ideias, sorrisos, música, as saias e, sobretudo, as pessoas”, descreve Elisabete Fiel.
Talvez seja essa a melhor forma de olhar para aquilo que está à entrada das Festas do Povo. Não são apenas imagens para receber quem chega. São uma tentativa de pôr Campo Maior inteiro diante dos olhos de quem o visita.
Uma Alma de Campo Maior feita de memórias, símbolos e pessoas — e que, desta vez, começa logo a contar a sua história à entrada da festa.

