Património

2026-08-12

Dois mil anos depois, Ammaia revela anfiteatro no coração do Alentejo

No concelho de Marvão, uma equipa luso-espanhola continua a retirar da terra um dos mais importantes vestígios da presença romana no Alto Alentejo. O monumento ajuda também a perceber a ligação entre Ammaia e Augusta Emerita, a atual Mérida.

Há lugares onde a fronteira parece não fazer grande sentido. Ammaia, no atual concelho de Marvão, é um desses lugares. Há quase dois mil anos, esta cidade fazia parte da Lusitânia romana, uma vasta província cujo centro político e administrativo estava em Augusta Emerita, a atual Mérida. Hoje, Portugal e Espanha estão separados por uma fronteira. Naquele tempo, Ammaia e Emerita pertenciam ao mesmo mundo.

É precisamente essa relação que uma equipa de arqueólogos portugueses e espanhóis procura compreender enquanto escava, ano após ano, um monumento que durante séculos permaneceu escondido: o anfiteatro romano de Ammaia.

Uma arena com 54 metros

O monumento terá sido construído durante a segunda metade do século I e permaneceu em utilização durante vários séculos. No centro ficava a arena onde decorreriam os ludi, os espetáculos públicos romanos que podiam incluir combates de gladiadores.

As dimensões ajudam a perceber a importância do edifício: 54 metros no eixo maior e 40 metros no menor. Mas o anfiteatro de Ammaia tem uma particularidade.

Os construtores romanos aproveitaram a própria configuração do terreno. Parte da bancada foi integrada na encosta, enquanto outra parte teve de ser construída sobre fundações próprias.

É uma solução que permite aos arqueólogos perceber não apenas como o monumento funcionava, mas também como os romanos adaptavam os seus grandes edifícios às características da paisagem.

Uma cidade que ainda tem muito para contar

O anfiteatro foi identificado pela equipa do Museu Nacional de Arte Romano de Mérida em 2019. Desde então, as escavações têm permitido conhecer progressivamente o edifício.

Uma das primeiras áreas a ser estudada foi a entrada monumental da arena, conhecida como porta triumphalis. O acesso era revestido a granito e apresentava elementos arquitetónicos igualmente trabalhados no mesmo material.

Existiam ainda pequenos compartimentos junto à arena cuja função poderá estar relacionada com práticas de natureza ritual ou religiosa. Mas a história do edifício não terminou quando os espetáculos deixaram de acontecer.

Quando o anfiteatro deixou de ser anfiteatro


Séculos depois da construção, o espaço sofreu uma transformação radical. O acesso norte do monumento, que originalmente servia a circulação dos espectadores, acabou por ser reutilizado como necrópole, entre o final do século IV e o início do século V.

É uma mudança particularmente reveladora. O mesmo espaço que tinha recebido multidões para assistir aos espetáculos romanos passou, algumas centenas de anos depois, a acolher mortos.

A arqueologia permite assim acompanhar não apenas a construção e utilização de Ammaia, mas também as profundas alterações que marcaram os últimos séculos do Império Romano.

Sete campanhas e uma história ainda por descobrir

A campanha que terminou agora é já a sétima realizada no local. Este ano, os trabalhos concentraram-se também na estrutura exterior do anfiteatro, onde os arqueólogos estão a documentar um sistema formado por três anéis concêntricos e fundações de grandes dimensões.

A investigação resulta da colaboração entre o Museu Nacional de Arte Romano e a Fundação de Estudos Romanos, de Mérida, e o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ).

O objetivo é maior do que reconstruir um anfiteatro. Os investigadores querem perceber de que forma o modelo da capital da Lusitânia, Augusta Emerita, se espalhou pelas cidades do território que hoje corresponde a Portugal e Espanha. E Ammaia é uma das peças fundamentais desse puzzle.

Uma história que não conhece a fronteira atual
 

A história de Ammaia lembra-nos que a fronteira entre Portugal e Espanha é relativamente recente quando comparada com a dimensão do território romano.

Há quase dois mil anos, pessoas que viviam nesta região faziam parte de uma mesma realidade política e cultural. Hoje, arqueólogos portugueses e espanhóis voltam a trabalhar juntos para reconstruir essa história.

E, enquanto a terra continua a ser retirada lentamente em Marvão, um dos grandes edifícios públicos de Ammaia vai regressando ao Alentejo — pedra após pedra.

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