O Aqueduto da Amoreira passou às meias-finais das novas 7 de Maravilhas de Portugal, mas a história que melhor explica a importância daquela gigantesca obra de engenharia aconteceu há mais de 350 anos, quando Elvas estava na linha da frente da guerra com Espanha.
Este sábado, o Aqueduto disputou em Santarém o apuramento para a fase nacional das Novas 7 Maravilhas de Portugal, na categoria de Grandes Obras. Mas muito antes de haver votos, havia cercos, canhões e uma cidade que precisava de sobreviver.
E é precisamente aí que começa uma das histórias mais curiosas do Aqueduto da Amoreira.
Durante a Guerra da Restauração, Elvas era uma das principais praças-fortes portuguesas e o seu sistema defensivo foi sendo reforçado para resistir aos ataques espanhóis. O Aqueduto, pela sua dimensão e localização, chegou a ser visto também como um problema do ponto de vista militar.
Houve mesmo a possibilidade de demolir partes da estrutura. Mas havia uma questão que era impossível ignorar: a água. O Aqueduto da Amoreira não era apenas um monumento. Era a principal obra responsável por levar água até Elvas. E numa cidade cercada, a água podia ser tão importante como as próprias muralhas.
Há, por isso, uma curiosa ironia naquela guerra: os espanhóis estavam do outro lado das muralhas e queriam conquistar Elvas. Mas, se conseguissem entrar na cidade, também precisariam da água que chegava através do Aqueduto.
Destruir aquela estrutura significaria destruir uma infraestrutura essencial para quem lá vivia — e também para qualquer exército que viesse a ocupar a cidade.
O Aqueduto acabou por sobreviver. E Elvas encontrou outras soluções para garantir o abastecimento de água em caso de cerco. A construção da grande Cisterna de Elvas, no século XVII, foi precisamente uma dessas respostas às necessidades de uma praça-forte que tinha de estar preparada para resistir durante longos períodos.
O episódio ajuda a perceber uma coisa que hoje, olhando para o Aqueduto como monumento, podemos esquecer. Aquelas arcadas não foram construídas para serem bonitas. Foram construídas para levar água. Só mais tarde se tornaram também uma das imagens mais impressionantes de Elvas.
Com mais de oito quilómetros de extensão e arcadas que chegam a ultrapassar os 30 metros de altura, o Aqueduto da Amoreira tornou-se uma das grandes obras de engenharia hidráulica de Portugal.
E resistiu. Resistiu à guerra, aos cercos e às transformações da própria cidade. Em 2012, passou a integrar o conjunto da Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e das suas Fortificações, classificado como Património Mundial pela UNESCO. Agora, tantos séculos depois, o Aqueduto volta a estar numa batalha.
Só que desta vez não há espanhóis às portas de Elvas, nem canhões apontados às muralhas. Há votos.