A festa está oficialmente marcada para os últimos quatro dias de agosto e volta a reunir uma programação que começa cedo e se prolonga pela madrugada. Haverá missa e procissão em honra da padroeira, os tradicionais encerros, festejos taurinos e vários espetáculos musicais.
Mas falar das festas de Barrancos é também recordar uma polémica que, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, colocou esta pequena vila do distrito de Beja no centro da atenção nacional.
A tradição que dividiu o paísDurante anos, os touros eram mortos na arena improvisada instalada no centro da vila, seguindo uma tradição taurina de influência espanhola profundamente enraizada em Barrancos. O problema é que a legislação portuguesa proibia, então, as touradas com touros de morte.
A situação tornou-se particularmente polémica em 1998 e 1999, quando associações de defesa dos animais recorreram aos tribunais para tentar impedir a realização das lides. Em 1998, uma providência cautelar determinou a proibição das corridas com touros de morte durante as festas, dando início a um confronto entre a aplicação da lei e a defesa de uma tradição que a população considerava parte essencial da identidade local.
Apesar das decisões judiciais e da pressão exercida sobre as autoridades, a tradição continuou a cumprir-se. Em 1999, por exemplo, uma nova providência cautelar tentou impedir as corridas previstas para os dias 29, 30 e 31 de agosto, mas as lides acabaram por realizar-se.
A polémica ganhou dimensão nacional e colocou frente a frente defensores dos direitos dos animais e habitantes de Barrancos, que argumentavam que estava em causa uma prática histórica e uma manifestação cultural própria da vila.
A exceção criada pela leiA discussão acabaria por chegar à Assembleia da República e, em 2002, foi aprovada a Lei n.º 19/2002, que criou um regime excecional para a realização de espetáculos com touros de morte quando estejam em causa tradições locais mantidas de forma ininterrupta durante, pelo menos, 50 anos.
A lei determina que estas exceções dependem de autorização e de uma tradição reconhecida como expressão de cultura popular. Foi este enquadramento legal que permitiu regularizar a situação de Barrancos e pôr fim a anos de conflito em torno das festas.
Desde então, os festejos taurinos voltaram a decorrer dentro do regime excecional previsto na legislação.
Quatro dias em que Barrancos muda de ritmoA “Fêra” começa esta sexta-feira com a alvorada da Banda Filarmónica “Fim de Século”, seguindo-se a missa solene e a procissão em honra de Nossa Senhora da Conceição.
Nos dias seguintes regressam os tradicionais encerros e os festejos taurinos, enquanto as noites serão preenchidas por música e baile. Hermanos Navarro, Doya, Os Alentons, Sixko Duran, Orquestra Magia, Eclipse, Sugar e Banda Replika fazem parte do programa anunciado para esta edição.
Mais do que os touros — e apesar de essa ser a imagem que durante anos levou Barrancos às manchetes — as festas continuam a ser um momento de encontro para a população local e para muitos barranquenhos que regressam à terra nesta altura do ano.
É também uma festa marcada pela proximidade da fronteira. Barrancos vive na raia e essa ligação a Espanha está presente na cultura, nas relações familiares e também nas tradições que ajudam a explicar a singularidade da celebração.
Entre 28 e 31 de agosto, os tabuados voltam a ocupar a praça, as ruas voltam a encher-se e Barrancos prepara-se para viver, mais uma vez, quatro dias de festa.
Porque, em Barrancos, há tradições que não cabem apenas numa notícia sobre touros.