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2023-09-09

Capitães de Abril comeram febras no Alentejo para preparar revolução

 
É o lado menos conhecido da revolução de 1974, mas o episódio que este sábado vai ser evocado nas Alcáçovas (concelho de Viana do Alentejo) traduziu um passo decisivo rumo ao golpe de Estado. 136 capitães encontraram-se no Monte do Sobral a 9 de Setembro de 1973 para uma reunião secreta e levaram febras para o repasto. Seriam determinantes para o caso de por ali aparecer alguma autoridade

TEXTO l Roberto Dores

FOTO l D.R.
 
   O coronel Aprígio Ramalho, vice-presidente da Associação 25 Abril, explica como as febras no pão, regadas com vinho, teriam o efeito de manobra de diversão caso alguém confrontasse os 136 militares com tremendo ajuntamento.

   «Era importante ter ali qualquer coisa para comer, porque seria a capa para encobrir uma surpresa indiscreta. Se chegasse alguém podíamos dizer que nos tínhamos reunido ali para confraternizar e despedir de alguns camaradas que iam embarcar para a guerra do ultramar dentro de dias», conta o coronel.

    Este sábado, a efeméride é assinalada no Monte do Sobral, nas Alcáçovas, onde Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa vão marcar presença, ao lado dos «Capitães de Abril», para assinalarem a aurora do «dia inicial inteiro e limpo» que iluminou Portugal sete meses depois de iniciada a tal conspiração.

   A iniciativa da celebração partiu da Associação 25 de Abril (A25A), presidida por um capitão de Abril, agora coronel, Vasco Lourenço, que dedicou ao tema o último número de O Referencial, órgão oficial da instituição. A revista foi lançada quarta-feira na A25A, com 34 textos inéditos de 29 intervenientes directos na conspiração e cinco escritos por analistas.

   Acrescenta Aprígio Ramalho que a revolução de Abril de 1974 até pode nem ter nascido no Alentejo, mas a reunião daquele 9 de Setembro foi determinante para que os 136 militares começassem a definir o golpe militar contra a ditadura política presente em Portugal desde 1926.
 
 
MOMENTOS DA HISTÓRIA

   A 9 de Setembro de 1973, mais de uma centena de oficiais das Forças Armadas rumavam a Évora. Dirigiam-se a um de dois pontos de encontro: o Templo Romano ou o posto de abastecimento na entrada Sul da cidade. Aí, receberiam uns croquis com a indicação do restante percurso, de cerca de 40 quilómetros, até ao Monte do Sobral, nas Alcáçovas.

 
   Para evitar suspeitas, o evento fora minuciosamente preparado, sob a capa de uma confraternização, pelos jovens capitães Diniz de Almeida, Vasco Lourenço, Rosário Simões, Carlos Camilo e Bicho Beatriz. Estava por horas a criação do Movimento que, depois de oito meses de intensa actividade conspirativa, a 25 de Abril de 1974, poria fim a 48 anos de ditadura.  

   Este Movimento – inicialmente designado como Movimento dos Capitães, posteriormente renomeado Movimento dos Oficiais das Forças Armadas (MOFA) e rebaptizado como Movimento das Forças Armadas (MFA) – seria um actor político fundamental da construção da democracia portuguesa. 

    Os organizadores do Encontro das Alcáçovas (Rosário Simões, Bicho Beatriz, Lopes Camilo, Diniz de Almeida e Vasco Lourenço), junto ao Templo de Diana, em Évora, um dos pontos de encontro em que se distribuíram o croquis do percurso para o Monte do Sobral. A fotografia foi realizada em 1994, no contexto do 20.º aniversário do 25 de Abril.
 
ENCONTRO NAS ALCÁÇOVAS

No Monte do Sobral, decorreu um acalorado debate. Discutiram-se os problemas da classe e as consequências da aplicação da nova legislação. Os presentes decidem-se pelo envio ao Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, de um abaixo-assinado pedindo a revogação dos polémicos decretos-lei e ressaltando a questão do prestígio das Forças Armadas. 
O documento integra as assinaturas dos 136 oficiais presentes, juntando-se a 51 que prestavam serviço na Guiné. Posto a circular, recolhe ainda o apoio de cerca de três centenas de oficiais em serviço na metrópole, 97 a prestar serviço em Angola e 105 a prestar serviço em Moçambique. 
Em paralelo, os organizadores do encontro ficam responsáveis por constituir a primeira comissão do Movimento, contando, para o efeito, com a colaboração de Rodrigues de Castro e Carlos Clemente. 
 

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