Guadalupe Sánchez, médica em Ceuta, descreve uma cidade “sem normalidade”, com centenas de urgências por dia, profissionais exaustos e casos de alegadas agressões sexuais. Entre as vítimas estarão menores.
“Estão a chegar violações ao hospital, feridos por arma branca e confrontos.” A frase é de Guadalupe Sánchez, médica em Ceuta, numa entrevista à televisão espanhola Antena 3, onde decidiu dar voz à pressão que, segundo relata, está a ser vivida diariamente na cidade após a entrada massiva de migrantes no final de julho.
A médica fala de um cenário de enorme pressão sobre os serviços de saúde. Segundo o seu testemunho, entre quinta-feira, sexta-feira e sábado terão sido registadas cerca de 4.000 urgências, número que admite poder estar abaixo da realidade. Atualmente, afirma, chegam a ser atendidas 300 a 400 urgências por dia, com apenas três médicos disponíveis.
“Há pessoas que nem comem, nem dormem”, relata, acrescentando que alguns profissionais fizeram turnos de 24 horas e permaneceram posteriormente ao serviço.
Mas é quando aborda a segurança que o testemunho ganha particular gravidade.
Guadalupe Sánchez afirma que ao hospital estão a chegar pessoas feridas com armas brancas e refere também casos de agressões sexuais. O seu relato surge numa altura em que as autoridades espanholas já confirmaram a existência de várias denúncias de agressão sexual envolvendo menores migrantes em Ceuta. A Polícia Nacional confirmou seis denúncias apresentadas por menores de idade.
Segundo a imprensa espanhola, inicialmente foram identificados quatro casos de menores migrantes atendidas por alegadas agressões sexuais, tendo posteriormente o número de denúncias aumentado para seis. Algumas das vítimas terão relatado tentativas de violação e outras apresentavam sinais compatíveis com agressão sexual.
Na entrevista à Antena 3, Guadalupe Sánchez rejeita a ideia de que Ceuta tenha regressado à normalidade. “Quando dizem que há normalidade, aqui não há normalidade”, afirma. A médica diz que os habitantes estão “mal psicologicamente” e denuncia também o medo sentido por comerciantes e pela população, além da pressão económica e social.
“Temos medo de sair”, afirma, defendendo uma intervenção mais forte das autoridades espanholas. A médica critica ainda a ausência, segundo o seu relato, de um protocolo claro para os profissionais e para a população e deixa um apelo direto ao Governo espanhol: “Que o nosso Governo dê a cara, que venha e nos ajude.”
O testemunho de Guadalupe Sánchez junta-se assim a um quadro que já está a ser acompanhado pelas autoridades judiciais e policiais espanholas. Os casos de alegadas agressões sexuais contra menores estão sob investigação, enquanto os serviços públicos de Ceuta continuam a enfrentar uma pressão excecional na sequência da crise migratória que marcou a cidade no final de julho