Durante anos, estavam ali. Faziam parte da paisagem de bairros, praias e ruas de Ceuta. Eram alimentados, identificados e acompanhados por voluntários que conheciam praticamente todos os animais das colónias. Agora, muitos desapareceram.
Ninguém sabe ao certo para onde foram dezenas de gatos que habitavam as 65 colónias felinas registadas na cidade autónoma espanhola. Alguns simplesmente deixaram de aparecer. Outros foram encontrados mortos ou gravemente feridos, com lesões que estão a deixar cuidadores e profissionais veterinários perplexos.
O caso mais recente é o de Andrés. Na madrugada de terça-feira, Pedro Toro, responsável pela colónia felina que recebeu precisamente o nome daquele gato, foi alertado por moradores para um animal ferido junto à zona onde costumava viver.
E era Andrés. Inicialmente, tudo apontava para um atropelamento. Mas, quando Pedro recolheu o gato e o examinou, encontrou ferimentos que, segundo o seu relato ao jornal espanhol The Objective, pareciam cortes provocados por um objeto cortante.
O animal estava gravemente ferido. Pedro acredita que Andrés terá sido atacado e espancado, acabando por morrer, já depois de terem sido contactados os serviços veterinários.
Mas Andrés não é caso único. Uma cuidadora da colónia da zona de O'Donnell relatou uma situação semelhante. Um dos gatos desapareceu durante dez dias e acabou por surgir com uma ferida semelhante à encontrada no corpo de Andrés.
Enquanto alguns animais aparecem feridos, outros parecem ter simplesmente desaparecido. Na praia de El Trampolín, uma das zonas onde existiam colónias felinas, os cuidadores garantem que já não encontram nenhum dos gatos que habitualmente ali viviam.
O fenómeno está a preocupar associações de proteção animal, voluntários e autoridades de Ceuta. A responsável pela área da Saúde e Serviços Sociais da cidade, Nabila Benzina Pavón, reconheceu ao mesmo jornal que nunca tinham enfrentado uma situação semelhante.
O desaparecimento dos animais começou a ser registado num período em que Ceuta enfrenta uma forte pressão migratória e várias zonas da cidade passaram a estar ocupadas por milhares de pessoas.
Os cuidadores dizem que muitas das áreas habitualmente frequentadas pelos gatos foram alteradas ou ocupadas, o que poderá ter levado os animais a fugir ou a dispersar-se.
Mas essa é apenas uma das hipóteses.
Também há relatos de animais encontrados mortos ou com ferimentos graves e de gaivotas que habitualmente se aproximavam das colónias para comer e que também deixaram de ser vistas em alguns locais.
Entre moradores e voluntários multiplicam-se as dúvidas. Alguns levantaram suspeitas sobre o que poderá estar a acontecer aos animais, mas, até ao momento, não existem provas que permitam estabelecer uma ligação entre os desaparecimentos, os casos de maus-tratos e a situação migratória que a cidade atravessa.
Enquanto as autoridades e os voluntários tentam localizar os animais, o mistério mantém-se. Nas ruas e praias onde antes era habitual encontrar gatos, há agora espaços vazios. E uma pergunta que começa a repetir-se entre quem cuida das colónias felinas de Ceuta: Onde estão os gatos?