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2022-04-07

O outro lado da guerra e o saco de gomas na bagagem

TEXTO Roberto Dores
 
Quando o telefone tocou e surgiu a proposta da chefia para ir 15 dias em reportagem para a Ucrânia, Nuno Veiga foi peremptório: «Sim», respondeu. O fotojornalista alentejano da Agência Lusa, que vive em Vila Boim (Elvas), acabava de assumir a «guia de marcha» rumo ao conflito do momento. De regresso a casa, Veiga recorda, sobretudo, duas passagens marcantes. Estão algures num parágrafo desta conversa com o Sul Ibérico. 
 
Comecemos, precisamente, pelo fim. O regresso a casa que mereceu uma foto no seu perfil do Facebook, com a placa indicativa de Vila Boim sobre um cozido de grão. Uma metáfora que traduzia a prazer de viver em Vila Boim. 

«Gosto de estar na pacatez do Alentejo, mas também gosto de ir daqui para todo o lado. Felizmente, através da Lusa, onde trabalho há 25 anos, tenho tido a oportunidade de ir a algumas aventuras e dar umas voltinhas pelo Mundo. Esta foi mais uma», relata o fotojornalista, revelando que habitualmente diz «sim» aos serviços que lhe são propostos «e este foi mais um».




«Mais um?», perguntamos. «Já tinha estado no Kosovo a acompanhar o pós-guerra, num cenário que ainda tinha minas e alguns perigos. A partir daí não hesito», explica, revelando que «no terreno as coisas nunca acontecem como nós pensamos».

Ou seja, conta Nuno Veiga, aquela ideia do cidadão comum, segundo a qual tudo é destruição, está longe de se confirmar por lá. «Quando cheguei a Kiev encontrei a hora de ponta. Dentro das cidades e fora das frentes de combate faz-se a vida normal, há combustíveis, há lojas abertas, as pessoas não passam fome». 

Em suma, não é tão mau como se pode imaginar. Assim se explica que a vida siga o seu curso normal quando as sirenes tocam. «A sirene toca frequentemente. Nós ficámos com um jornalista local, que nos acompanhou durante a viagem, e até ficámos em casa dele. Quando ouvimos a sirene a primeira vez ainda ficámos apreensivos, mas não se passou nada. Depois uma pessoa habitua-se».




O momento em que esteve mais próximo da frente de batalha foi quando viajou quase até à fronteira com a Bielorrusia, após o ataque com um míssil. «Mas aquilo está muito controlado. Há check points e estradas cortadas. Só há algumas vias transitáveis, mas só passa quem tem acreditação», refere, antes de contar como se prepara uma bagagem para uma «aventura» deste calibre.

«Sempre o material fotográfico. Tenho que perceber o que tenho de fazer. Vou fazer  fotografia e vídeo. Posso levar tripé, mas tenho que levar o menos material possível, porque a qualquer momento uma pessoa pode ter que correr com as malas», diz.

Quanto a amuletos? Não é adepto. E gomas? Isso sim. (Risos). «Já são quase uma imagem de marca. É como o cabelo. O dia que eu cortar o cabelo ninguém me conhece. Confesso que já comi mais gomas do que como agora, mas as pessoas continuam a perguntar pelas gomas. Comprei um saco bem grande de gomas no aeroporto para não me faltar essa munição».



 
E o idioma? «Tínhamos um intérprete que andava connosco, mas mais ninguém falava inglês. Às vezes queria falar com pessoas, para perguntar nome e criar um ambiente, para que não fosse só tirar fotografia, mas não conseguia comunicar com eles. Não é fácil trabalhar assim».

E, já agora, o medo? «Mais respeito do que medo», ressalva Nuno Veiga, recordando como os russos estavam a aproximar-se de Kiev quando ele e o seu colega (Paulo Agostinho) lá estavam. «Podia ter-se complicado, mas estivemos em comunicação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros para a eventualidade de serem evacuados os jornalistas todos», revela.

Confirmou no terreno a precipitação russa. «Pensavam que em três ou quatro dias conseguiam entrar em Kiev, mas encontraram um povo que não está disposto a isso. É um povo que vive pelos padrões europeus e que quer continuar assim. Estão dispostos a defender a sua terra», afiança o jornalista, testemunhando como muitas mulheres quiseram ficar no seu país para ajudar na defesa da terra.

«Entrevistámos mulheres que eram assistentes sociais e que naquele momento estavam a gerir a logística para o exército ao nível da alimentação, roupas, fardas e armas. Não é só o exército que está a defender o país. Há uma defesa territorial, com  civis armados como militares», descreve, tendo também constatado como a vida continua.

Vamos ao exemplo na agricultura. «Houve um senhor que nos disse que, haja guerra ou não, segunda-feira ia plantar batatas, porque temos que comer. Estou a falar de um empresário com uma área enorme».




Tempo agora para «puxar» pelos dois momentos mais marcantes nesta missão jornalística pelo Leste da Europa. Primeiro: «Chegar, estar no apartamento e sentir aquele vibrar de rebentamentos mete respeito».

Segundo momento. «Foi ao nível humano. Entrevistámos uma família em que a mãe era contabilista e o pai era director de uma cadeia de supermercados. Há um momento em que o homem está a falar e a senhora fica com um olhar perdido, com as lágrimas a escorrer pelo rosto. Ainda hoje, quando vejo a fotografia que fiz... arrepia aquele olhar perdido. As pessoas a pensar o que vai ser de nós, vamos poder voltar algum dia às nossas casas?».

Nuno Veiga gostava de voltar à Ucrânia. Mas já em tempos de paz e ao lado da sua família. «Para lhes apresentar amigos que lá fiz». 
 

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