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2023-07-03

Primos Marvanejo lançam-se no mercado do vinho. Herdade da Amada é o início de uma nova história

Plantar vinha e dizer que é muito boa, só por si, não chega para
alcançar os objectivos que acompanham o novo projecto da administração
dos Armazéns Marvanejo. Os horizontes são mais largos para este grupo
de Elvas que desde 2018 é dono da Herdade da Amada, datada de 1636,
quando Brites Amada a registou. O desafio lançado pelos primos Helena
e Luís Miguel aponta a uma estratégia diferenciadora, habilitada a
criar vinhos com mais acidez e frescura em clima seco. A aposta é
firme na sustentabilidade quando a água mais escasseia. Nem o peso das
garrafas foi esquecido: Apenas 440 gramas. O primeiro Herdade da Amada
Branco foi lançado esta segunda-feira
 
TEXTO l Roberto Dores
 
   Produzir o próprio vinho era um sonho assumido por Luís Miguel Marvanejo. «Sempre gostei mais de vinho do que de cerveja e estava cansado de vender tantos vinhos, de tantos produtores e de tantas marcas. Sempre tive o sonho de um dia  termos a nossa própria vinha», justifica o empresário.


A oportunidade surgiu em 2018 à boleia da aquisição da Herdade da
Amada, onde viriam a ser plantados 14 hectares de vinha (algo como 14
campos de futebol). A uva começou a ser produzida há dois anos. O
primeiro vinho branco está apresentado. São 7 mil garrafas. Em Outubro
chega o tinto, que precisa de mais tempo de estágio. O início da «nova
aventura» empresarial faz-se com cerca de 30 mil garrafas, mas lá para
2026 deverão ser perto de 110 mil.


   Como foi o caminho até aqui? «Decidimos plantar videiras bravas americanas que no ano seguinte foram enxertadas. Foi uma decisão arriscada e mais cara, mas que nos pemite ter uma estratégia de diferenciação», explica-nos, revelando que foram ao campo recuperar a genética de vinhas velhas de sequeiro para a enxertia.


«Sempre gostei mais de vinho do que de cerveja. Sonhava ter a própria
vinha e surgiu a oportunidade de comprar a Herdade da Amada», revela Luís
Miguel Marvanejo, acrescentando que a aposta se direcciona para um
«projecto diferenciador»

   Os primos Marvanejo apresentam este processo como a mais-valia do investimento. «Ao serem mais fortes, as vinhas criam um sistema radicular (raízes) com mais profundidade e a planta aguenta melhor as altas temperaturas do Alentejo. Isso garante uma vinha durante mais anos», enfatiza Luís Miguel, colocando a resposta às alterações climáticas entre as prioridades do grupo elvense.

   Aliás, a vinha já está em processo de implementação do Plano de Sustentabilidade das Vinhas do Alentejo, enquanto os enxertos das plantas permitem poupar na rega, que no futuro deverá ter lugar apenas em situações extremas. Algo que será inédito em Portugal em áreas de 14 hectares.

   Escutemos Helena Marvanejo Carvalho: «Trabalhamos com pessoas que fazem consultorias e no nosso país não existe nada assim. Também não conhecemos nada do género em Espanha», reforça. «É mais fácil chegar a um viveirista e comprar 56 mil plantas que acabam por ser todas iguais. O processo que seguimos é diferente, porque não queremos deixar as vinhas só para os nossos filhos. Gostávamos de também as deixar para os nossos netos», diz.
 

Vinha sustentável. Uvas são apanhadas à mão pelos 14 hectares 
 
   Luís Miguel assume que «para se fazer um grande vinho é preciso ter uma grande vinha», uma vez que, alega, «o vinho tem que ser feito no campo e não na adega». E Helena explica o conceito: «Os enólogos têm uma panóplia de produtos que adicionam aos vinhos e ficam sempre bons. Nós não queremos seguir
esse caminho», admite, preferindo olhar para a produção de vinho como já fazem com a transformação da carne.

   Ou seja, completa Luís Miguel, a ideia é não acrescentar nada aos «néctares», uma vez que «a qualidade do vinho tem que ser garantida na vinha, tratando bem as uvas. A intervenção do enólogo na adega tem que ser mínima. Sulfuroso e pouco mais».
 
 
«Não queremos deixar as vinhas só para os nossos filhos. Gostávamos de
também as deixar para os nossos netos», diz Helena Marvanejo Carvalho,
para justificar o investimento dos empresários num plano de
sustentabilidade



Distribuição por todo o País e Europa virá a seguir
 
E o que vem por aí depois do primeiro vinho apresentado esta
segunda-feira? «Temos parceiros em todo o país e em vários pontos da
Europa. Temos distribuidores de Viana do Castelo ao Algarve»,
assinalam os primos Marvanejo, revelando que inicialmente será feita a
aposta na distribuição regional e em Setembro tencionam avançar pelo
País. Sublinham uma estratégia empenhada na valorização do produto.
Algo que, na opinião dos empresários, tem faltado ao sector em Portugal, justificando os preços
baixos que caracterizam os vinhos nacionais.

 
 
Ligação ao património de Elvas e projecto de adega própria em marcha
 
Já a promoção da Herdade da Amada exibe a particularidade de puxar pela
ligação ao património da cidade de Elvas, com a singular fortificação que
mereceu a classifcação da Unesco em 2012. «Os vinhos são também
experiências. O que almoçámos, o que visitámos. As pessoas vão ver a
cidade e vão contar a experiência lá fora», justifica Luís Miguel. Por agora a empresa recorre à adega em Esperança (Arronches), mas vai 
avançar para a construção da própria adega na Herdade da Amada. Já
compraram sete cubas e um grande depósito de cimento.
 
 
Três monocastas e prova interactiva no contra-rótulo

A restauração e as garrafeiras especializadas são os espaços
prioritários para colocar os vinhos da Herdade da Amada, deixando de
fora os supermercados.
O grupo Marvanejo anuncia ainda três monocastas que deverão sair na
Primavera. Precisam de mais tempo depois de terem ida à madeira.
Touriga Nacional, Syrah e Alicante Bouschet.
Uma curiosidade no contra-rótulo: O QR Code convida à prova de vinhos
interactiva, exibindo um pequeno filme onde os enólogos explicam qual
é o «néctar» que «mora» na respectiva garrafa. Uma forma de falar para
todos os consumidores. Brindemos pois!
 
 
 

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