Notícias

2026-08-13

Quando até a voz nos pode enganar: o caso de Brian May

A inteligência artificial já consegue fazer uma coisa que, há pouco tempo, parecia impossível: colocar na boca de uma pessoa palavras que ela nunca disse — e fazê-lo de uma forma suficientemente convincente para nos deixar na dúvida.

Ontem, aconteceu-nos isso. Partilhámos um vídeo verdadeiro de Brian May, o lendário guitarrista dos Queen, que esteve em Espanha para assistir ao eclipse solar. No vídeo que Brian May publicou na sua página oficial do Instagram, surgia aquilo que parecia ser o músico a deixar recomendações para observar o fenómeno em segurança… em português.

Leitores suspeitaram que havia qualquer coisa estranha e comentaram que a voz poderia ter sido criada por inteligência artificial. Fomos confirmar.

De facto, o vídeo era verdadeiro. Brian May estava efetivamente em Espanha. Mas o áudio em português era uma tradução/dobragem gerada por inteligência artificial.

Perante a confirmação, apagámos a publicação.

Não é agradável reconhecer um erro, sobretudo quando se trabalha com informação. Mas é precisamente aqui que está uma das grandes dificuldades que a inteligência artificial coloca ao jornalismo e às redes sociais: já não basta verificar se uma imagem é verdadeira. É preciso verificar também o que estamos a ouvir.

Uma pessoa pode estar realmente naquele lugar, naquele dia, e o vídeo pode ser genuíno. Mas aquilo que diz pode ter sido posteriormente traduzido, dobrado ou recriado através de IA.

E há um pormenor particularmente inquietante: neste caso, a informação acrescentada ao vídeo parecia perfeitamente plausível.

É por isso que fica a aprendizagem.

Quando uma figura pública aparece a falar uma língua que normalmente não utiliza, vale a pena parar alguns segundos e confirmar a origem do áudio.

A IA está a ficar extraordinariamente boa a imitar vozes, traduzir discursos e sincronizar movimentos labiais. E nós, enquanto leitores e enquanto quem produz informação, vamos ter de ficar extraordinariamente bons a verificar.

Ontem, aprendemos isso da forma mais simples. Os nossos leitores chamaram a atenção. Nós fomos confirmar. E afinal, tinham razão.

É também para isto que serve uma comunidade atenta.

Artigos Relacionados

« Voltar