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2023-06-09

«Sou a Luísa, tenho 9 anos e adoro fazer tapete de Arraiolos»

 
Pode ou não ser a nova geração que os Tapetes de Arraiolos tanto procuram para que a tradição se mantenha de pedra e cal. Mas uma coisa é certa. Luísa Pereira Pequito, nos seus tenros 9 anos, já mostra que conhece os primeiros passos da arte da célebre tapeçaria que vai ao encontro de bordados com lã sobre tela de juta ou algodão
 
 
TEXTO l Roberto Dores
 
   «São dois pontos. Vê? É assim que se faz o tapete», explica-nos a pequena Luísa, enquanto empurra a agulha para o bordado avançar mais uma casa. Hoje tem a ajuda da tia, mas já experimentou em casa da avó e na escola. «Adoro fazer tapete de Arraiolos. Quando posso dou uns toques e vou aprendendo mais qualquer coisa. E então aqui na rua é muito giro», atesta.

 
   A criança está entre outras praticantes que se juntaram à porta da Arte em Casa, de Paula Ramalho, para darem corpo a uma espécie de «montra viva» em pleno «Tapete está na Rua», que vai percorrer as artérias dos centro de Arraiolos até domingo, numa promoção peculiar que aposta forte na valorização do ex-líbris do concelho.

   E os tempos são de preocupação, precisamente, devido à falta de mão-de-obra. «Temos clientes, mas não encontramos pessoas para trabalhar», queixa-se Paula Ramalho, recordando que a sua mãe tem a loja há 45 anos e nesses tempos contava com «grandes grupos de jovens mulheres» para confeccionarem os tapetes. «Precisavam de dinheiro para o enxoval e tinham que trabalhar, Hoje os miúdos têm tudo e é difícil atraí-los para aqui. Ganha-se mal», acrescenta.

   Mas não há como tentar. Num dos espaços do certame onde se trabalha ao vivo, já se sabe dizer que o ponto de Arraiolos «é um ponto cruzado oblíquo composto por duas meias cruzes, uma das quais tem o dobro do comprimento da outra».


   Fica o detalhe, enquanto Joana, de 19 anos, vai fiando, depois já ter cardado a lã. «Não é difícil, mas ao princípio é preciso ter mais atenção. Vejo estas senhoras a fazer muito bem, mas elas já têm muita prática. Para mim, é a primeira vez e está ser fantástico», relatava, enquanto ali ao lado Diogo Rola assumia que o seu futuro «até pode passar pelo tapete».

 
   Lamentava ter esquecido o que aprendeu na escola há uns anos. «Tivemos a disciplina e já sabia fazer o ponto. Como nunca mais fiz perdi-lhe o jeito». O jovem tem 21 anos e recebeu a garantia de uma veterana bordadeira que lhe iria reavivar a memória. «Se não forem vocês a tomarem conta disto ainda acabam os tapetes de Arraiolos», vaticinava.

 
«Estamos a conseguir passar a mensagem da valorização dos tapetes aos jovens»
 

O entusiasmo com que os mais novos encaram o tapete de Arraiolos nem é surpresa para a  presidente da Câmara. Sílvia Pinto recorda que a autarquia tem apostado na promoção da tapeçaria local junto das escolas, à boleia do projecto «Aprender para transformar». O espaço educativo do Centro Interpretativo do Tapete tem chegado aos estabelecimentos de ensino, destacando a autarca que, sobretudo, os alunos do 1º ciclo «adoram os desafios que lhes são lançados. Estamos a conseguir passar esta mensagem aos nossos jovens», sustenta, alertando que falta ainda quem queira fazer tapetes no futuro.
 

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